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Uma alegoria da Arte Contemporânea - Conferência por José Bragança de Miranda
Evento por: Rui Filipe Antunes, Jonas Runa, Jose Gomes Pinto
Localização: Museum of Contemporary Art – MAC/CCB, Praça do Império, Lisboa
Sobre o evento
Conferência de José Bragança de Miranda
29 de março
15:30h no auditório do MAC/CCB
Uma alegoria da Arte Contemporânea
Paradoxalmente uma crise difusa atravessa a ideia de arte contemporânea, enquanto as obras de arte se multiplicam e disseminam. Num momento de viragem, em 1970, Adorno afirma que “se tornou manifesto que tudo o que diz respeito à arte deixou de ser evidente, tanto em si mesma como na sua relação com o todo, e até mesmo o seu direito à existência”. As diversas estéticas que procuraram pensá-la foram falhando sucessivamente, acima de tudo pela recusa por parte dos artistas de qualquer juízo estético, mas também porque o centro institucional das artes - o museu - foi perdendo força, como se tivesse ocorrido uma espécie de evasão geral. As actuais tentativas de usar a política como critério constitui mais um problema que uma solução, dado que sem a força da an-arché a arte se reduz a mera auxiliar das ideologias em guerra. Nestas circunstâncias o único critério que parece restar é a “obra de arte”, cada uma delas na sua singularidade produzindo uma estética transitória, inventando conceitos, determinando os seus encontros e desencontros no real. Neste sentido, cada obra, sendo única, cria espontaneamente uma alegoria da arte. Todas o fazem necessariamente, mas por razões misteriosas nem todas o fazem da mesma maneira, nem possuem a mesma potência. Eis o que se procurará mostrar.
Bio
José A. Bragança de Miranda é doutorado em Ciências da Comunicação pela Unversidade Nova de Lisboa, com agregação em «Teoria da Cultura» na mesma Universidade. Actualmente é Professor Catedrático na Universidade Lusófona, onde desempenha as funções de Reitor. Tem leccionado nas áreas da Teoria da Cultura, Artes Contemporênas e Teoria dos Media. Autor de numerosos ensaios nas mais diversas áreas da cultura contemporânea, das suas publicações destacam-se apenas os Livros Analítica da Actualidade, Política e Modernidade, Traços. Ensaios sobre a Cultura Contemporânea, Teoria da Cultura, Síntese, Albuquerque Mendes ou o Ardor da Arte, Queda Sem Fim, Envios. Uma experimentação filosófica nos Blogues, Corpo e Imagem e Jorge Molder, Constelações: Ensaios sobre Cultura e Técnica na Contemporaneidade (Documenta, 2023).
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Conferência inserida no ciclo de Conferências Anuais Espaços Outros MAC/CCB . CICANT . ECATI
Este ciclo é uma parceria entre o Centro Cultural e Belém e a Escola de Comunicação, Arquitectura, Artes e Tecnologias da Informação (ECATI) e o Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias (CICANT) da Universidade Lusófona-Centro Universitário de Lisboa.
O objetivo desta parceria é ligar a produção académica e científica com a comunidade, proporcionando a possibilidade de transmissão de conhecimento ao mesmo tempo que se mostra como um espaço de diálogo plural. A ação que cada instituição leva a cabo contempla a possibilidade de sinergias temáticas, que vão desde as artes visuais, o cinema, as artes cénicas e as artes sonoras, a comunicação e a cultura, a arquitectura e os novos dispositivos digitais.
Estas conferências anuais terão lugar no Centro Cultural de Belém uma vez por mês, Sábado, 15:30h no auditório do MAC/CCB e com uma programação que se estende entre Março e Dezembro.
A arte do século XXI…? Outros espaços: Margens criativas.
Em 1926, o historiador e teórico da arte, Carl Einstein, publica, em Berlim, na famosa Propyläen-Verlag, a A arte do século XX. Bem cedo, pensaram muitos. Logo nos primeiros parágrafos da obra, Einstein toca um problema que parece repetir-se agora, o do «cepticismo desta época».
O fazer criativo do homem consiste, também, em criar uma dimensão que não pertence ao regime do natural, da cognição, do conhecimento, mas sim da imaginação e das novas formas de redesenhar os objectos, ainda que às primeiras dimensões possa ainda estar ligada; a arte, porque age a partir do real, e sobre ele, é construtora e configuradora do real, já que o organiza, reorganizando os seus objectos em torno de leis que não existem na natureza, mas só e sim na própria pulsão criativa do homem; porque só a arte tem o poder de «transformar as coisas em signos nunca vistos» (Carl Einstein). Compreende-se esta caracterização porque para Einstein se tratava sempre, e principalmente, de se afastar do seu tempo, de criar distâncias para poder pensar, de um querer ir mais além da época histórica, procurando a simultaneidade temporal das formas de ver que a história até então tinha produzido, «o dever», diz em A arte do século XX, de «transformar a actividade e a percepção humanas». Para Einstein tudo se jogava nas formas de afecção da visualidade e da organização das imagens, antecipando muito das fracturas que, no mesmo século, vieram a produzir-se e que ainda hoje subsistem. É essa forma de reorganização da visão que recolhe dentro de si o conceito do alucinatório, um elemento que para ele pertence à arte enquanto instrumento que permite recriar novas formas de ver, não um meio ou instrumento que dá a ver formas, que projecta ideias ou sensações, mas sim que provoca modificações do olhar e, ao fazê-lo, produz novos modos de ver, de recriar a própria realidade. Por isso, para este, a arte é sempre, também, da ordem do político. O uso do conceito de alucinatório remete, em Einstein, para processos psíquicos complexos que ligam condições subjectivas e condições objectivas, processos psíquicos e fenómenos perceptivos, fenómenos sociais, também. Quando o alucinatório se produz, ocorrem para este processos de reacções entre o psiquismo e o fenómeno biológico, produzindo-se dessas reacções o trans-visual, um conceito que vai mais além da simples definição da arte como algo estanque, completamente definido. Entre estas possibilidades, queremos pensar, um século depois, a situação da arte no século XXI e para tal, não só Carl Einstein nos interpela, também vem a jogo a conhecida afirmação, vezes sem conta repetida na última centúria, de Samuel Beckett num título muito afim ao que propomos: «É o fim que é o pior, depois o meio, depois o fim, no fim é o fim que é o pior» (L'Innommable, 1958).
29 de março
15:30h no auditório do MAC/CCB
Uma alegoria da Arte Contemporânea
Paradoxalmente uma crise difusa atravessa a ideia de arte contemporânea, enquanto as obras de arte se multiplicam e disseminam. Num momento de viragem, em 1970, Adorno afirma que “se tornou manifesto que tudo o que diz respeito à arte deixou de ser evidente, tanto em si mesma como na sua relação com o todo, e até mesmo o seu direito à existência”. As diversas estéticas que procuraram pensá-la foram falhando sucessivamente, acima de tudo pela recusa por parte dos artistas de qualquer juízo estético, mas também porque o centro institucional das artes - o museu - foi perdendo força, como se tivesse ocorrido uma espécie de evasão geral. As actuais tentativas de usar a política como critério constitui mais um problema que uma solução, dado que sem a força da an-arché a arte se reduz a mera auxiliar das ideologias em guerra. Nestas circunstâncias o único critério que parece restar é a “obra de arte”, cada uma delas na sua singularidade produzindo uma estética transitória, inventando conceitos, determinando os seus encontros e desencontros no real. Neste sentido, cada obra, sendo única, cria espontaneamente uma alegoria da arte. Todas o fazem necessariamente, mas por razões misteriosas nem todas o fazem da mesma maneira, nem possuem a mesma potência. Eis o que se procurará mostrar.
Bio
José A. Bragança de Miranda é doutorado em Ciências da Comunicação pela Unversidade Nova de Lisboa, com agregação em «Teoria da Cultura» na mesma Universidade. Actualmente é Professor Catedrático na Universidade Lusófona, onde desempenha as funções de Reitor. Tem leccionado nas áreas da Teoria da Cultura, Artes Contemporênas e Teoria dos Media. Autor de numerosos ensaios nas mais diversas áreas da cultura contemporânea, das suas publicações destacam-se apenas os Livros Analítica da Actualidade, Política e Modernidade, Traços. Ensaios sobre a Cultura Contemporânea, Teoria da Cultura, Síntese, Albuquerque Mendes ou o Ardor da Arte, Queda Sem Fim, Envios. Uma experimentação filosófica nos Blogues, Corpo e Imagem e Jorge Molder, Constelações: Ensaios sobre Cultura e Técnica na Contemporaneidade (Documenta, 2023).
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Conferência inserida no ciclo de Conferências Anuais Espaços Outros MAC/CCB . CICANT . ECATI
Este ciclo é uma parceria entre o Centro Cultural e Belém e a Escola de Comunicação, Arquitectura, Artes e Tecnologias da Informação (ECATI) e o Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias (CICANT) da Universidade Lusófona-Centro Universitário de Lisboa.
O objetivo desta parceria é ligar a produção académica e científica com a comunidade, proporcionando a possibilidade de transmissão de conhecimento ao mesmo tempo que se mostra como um espaço de diálogo plural. A ação que cada instituição leva a cabo contempla a possibilidade de sinergias temáticas, que vão desde as artes visuais, o cinema, as artes cénicas e as artes sonoras, a comunicação e a cultura, a arquitectura e os novos dispositivos digitais.
Estas conferências anuais terão lugar no Centro Cultural de Belém uma vez por mês, Sábado, 15:30h no auditório do MAC/CCB e com uma programação que se estende entre Março e Dezembro.
A arte do século XXI…? Outros espaços: Margens criativas.
Em 1926, o historiador e teórico da arte, Carl Einstein, publica, em Berlim, na famosa Propyläen-Verlag, a A arte do século XX. Bem cedo, pensaram muitos. Logo nos primeiros parágrafos da obra, Einstein toca um problema que parece repetir-se agora, o do «cepticismo desta época».
O fazer criativo do homem consiste, também, em criar uma dimensão que não pertence ao regime do natural, da cognição, do conhecimento, mas sim da imaginação e das novas formas de redesenhar os objectos, ainda que às primeiras dimensões possa ainda estar ligada; a arte, porque age a partir do real, e sobre ele, é construtora e configuradora do real, já que o organiza, reorganizando os seus objectos em torno de leis que não existem na natureza, mas só e sim na própria pulsão criativa do homem; porque só a arte tem o poder de «transformar as coisas em signos nunca vistos» (Carl Einstein). Compreende-se esta caracterização porque para Einstein se tratava sempre, e principalmente, de se afastar do seu tempo, de criar distâncias para poder pensar, de um querer ir mais além da época histórica, procurando a simultaneidade temporal das formas de ver que a história até então tinha produzido, «o dever», diz em A arte do século XX, de «transformar a actividade e a percepção humanas». Para Einstein tudo se jogava nas formas de afecção da visualidade e da organização das imagens, antecipando muito das fracturas que, no mesmo século, vieram a produzir-se e que ainda hoje subsistem. É essa forma de reorganização da visão que recolhe dentro de si o conceito do alucinatório, um elemento que para ele pertence à arte enquanto instrumento que permite recriar novas formas de ver, não um meio ou instrumento que dá a ver formas, que projecta ideias ou sensações, mas sim que provoca modificações do olhar e, ao fazê-lo, produz novos modos de ver, de recriar a própria realidade. Por isso, para este, a arte é sempre, também, da ordem do político. O uso do conceito de alucinatório remete, em Einstein, para processos psíquicos complexos que ligam condições subjectivas e condições objectivas, processos psíquicos e fenómenos perceptivos, fenómenos sociais, também. Quando o alucinatório se produz, ocorrem para este processos de reacções entre o psiquismo e o fenómeno biológico, produzindo-se dessas reacções o trans-visual, um conceito que vai mais além da simples definição da arte como algo estanque, completamente definido. Entre estas possibilidades, queremos pensar, um século depois, a situação da arte no século XXI e para tal, não só Carl Einstein nos interpela, também vem a jogo a conhecida afirmação, vezes sem conta repetida na última centúria, de Samuel Beckett num título muito afim ao que propomos: «É o fim que é o pior, depois o meio, depois o fim, no fim é o fim que é o pior» (L'Innommable, 1958).